Filho enjeitado - Nicias Ribeiro

Ouvi essa expressão pela primeira vez ainda menino, na fazenda de meu pai, na ilha do Marajó, quando um bezerrinho faminto, que havia acabado de nascer, buscava se alimentar e a sua mãe lhe negava o leite, o que obrigou a se improvisar uma mamadeira para alimentar aquele infeliz bezerrinho, com o leite das outras vacas. E esse fato, é claro, me marcou tanto que lembro até hoje, até porque era difícil a uma criança, naquela época, entender como u’a mãe poderia enjeitar o próprio filho, mesmo sendo uma vaca.

Mais tarde, já adolescente, lendo o antigo jornal “Folha do Norte” ví pela segunda vez essa expressão, desta vez porque uma mulher havia abandonado o próprio filho que acabara de nascer e que, por sor te, logo foi encontrado. Lembro-me que a minha mãe ao referir-se a esse fato, que, aliás, era a manchete do jornal, dizia que “era o fim do mundo”. Mas, isso foi naquele tempo! Hoje, lamentavelmente, esses fatos são tão banais, que até fazem parte da trama da novela “Amor à Vida”, da rede Globo, onde o personagem “Félix”, que jogou a sobrinha no lixo, evoluiu como ser humano e ganha o respeito dos outros personagens, e, ao que parece, até dos telespectadores.

É claro que não sou e nem tenho a pretensão de ser crítico de novela. E muito menos analista do comportamento psico-social dos seres humanos e do restante do mundo animal. Todavia, acho que a expressão “filho enjeitado”, muito usada para os filhos abandonados por suas mães, pode ser aplicada a outras situações, como, por exemplo, a relação entre a União Federal e o Pará, que, ao meu ver, tem sido o filho enjeitado dessa “mãe poderos a”, que não reconhece e não dá o devido valor a esse filho, que se chama Pará, que, sem duvidas, possui um imenso potencial mineral e hidrelétrico, talvez o maior de Brasil, e que pouco ou nada ganha com a exportação de minérios e com a geração de energia elétrica, fato que, por sí só, já sugere a realização de uma campanha, a nível nacional, lembrando que o Pará também é Brasil, até porque o Pará não pode continuar sendo tratado como “um filho enjeitado” da União, sem reconhecimento, sem atenção, sem apoio e sem investimentos. E não se diga que é pelo fato do Simão Jatene ser do PSDB, uma vez que no governo anterior da Ana Julia, que era do PT- partido do então presidente Lula, Belém foi preterida na escolha para ser sub-sede da Copa de 2014, mesmo tendo estádio olímpico e uma das mais vibrantes torcidas do Brasil e que vai ao estádio, apesar dos seus times estarem na pior das suas fases. Mesmo assim, Manaus foi a escolhida como subse de da Copa de 2014. Então a questão não é política, é de rejeição mesmo ou de falta de visão estratégica. E isso talvez explique o fato da ponte sobre o rio Xingú, no eixo da Transamazônica, até hoje não ter sido sequer iniciada, apesar das obras de Belo Monte estarem a todo vapor e provocando, como é natural, o congestionamento de veículos a espera da atravessia da balsa. Mas, em contrapartida, a União Federal construiu sobre o rio Negro uma grande ponte, que liga Manaus a coisa nenhuma.

Descaso pior se vê com a hidrovia do Tocantins, que, apesar da grandiosa festa de inauguração das Eclusas de Tucuruí, no final do governo Lula, até hoje não foi feita a derrocagem do pedral de Lourenço, no trecho Marabá-Tucuruí e cuja ação ficou para o governo da presidente Dilma, do qual, aliás, já foi consumido três anos e o pedral do Lourenço continua lá, inviabilizando a hidrovia do Tocantins e transforma ndo as eclusas num equipamento inútil, o que, por óbvio, agride a inteligência do povo paraense.

Quanto a pavimentação das rodovias Cuiabá-Santarém (BR-163) e Transamazônica (BR-230), prometida pelo presidente Lula na campanha para o seu primeiro mandato presidencial, continuam em compasso de espera e deverão fazer parte da lista de promessas de campanha para o 2° mandato da presidente Dilma, apesar de que os 11anos que se passaram, desde o inicio do 1° mandato do presidente Lula até os dias de hoje, é tempo demais para se pavimentar essas duas rodovias federais, cujas obras, alias, integram o chamado o PAC I. E neste caso, o Pará é um filho enjeitado também da presidente Dilma, a “mãe do PAC” segundo o ex-presidente Lula. E a duplicação da BR-316?!

Por: Nicías Ribeiro, Engenheiro Eletrônico.
*artigo publicado no jornal O Liberal, 1º caderno, pág. 02, edição de ontem, 15/01/2014, quarta-feira.

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